Voltar

Os Correios no Brasil e nos EUA

Em ambos os países a atividade de entrega postal é questão de soberania nacional

Edição: 530
Data da Publicação: 30/01/2026

Os Correios, por lei, precisam chegar a todos os cantos do Brasil. É o jeito de garantir aos mais de 215 milhões de brasileiros o direito de comunicação e, por mais longe que eles estejam em suas mais de 5.500 cidades brasileiras, os Correios chegam em todas elas. Nenhuma empresa, nem a mais rica e mais poderosa, faz isso. Menos de 500 cidades dão lucro para os Correios, ou seja, cerca de 8%.

Esse é o tamanho do desafio, ter que atender 92% do território nacional, mesmo não sendo lucrativo. A solução das demais transportadoras é bem simples, elas simplesmente não atendem, é longe, é de risco. A maior parte da população (a mais pobre) não é atendida pelas principais transportadoras privadas do país.

Direitos não dão lucro e, sem direitos, não há sociedade; sem sociedade organizada, as empresas privadas não dão lucro. Por exemplo: a polícia dá lucro? Não dá, mas, sem ela operando, não há possibilidade de haver lucro em qualquer outra atividade.

Nas enchentes do Rio Grande do Sul, quem levou trinta milhões de quilos de doações de alimentos a todos os municípios? Isso mesmo, foram os Correios, enquanto as outras empresas deixaram de operar ou faziam doações ínfimas e se vangloriavam disso.

Qual transportadora entrega mais de 200 milhões de livros em milhares de escolas para que a educação possa funcionar? Só os Correios fazem isso. Em 1700 cidades mais inacessíveis, o Enem só acontece via Correios. As devoluções do dinheiro roubado pelas associações privadas para quatro milhões de aposentados do INSS foi feita por quem? Pelos Correios, que também é o órgão que emite o CPF para a maior parte da população brasileira. Mesmo assim, os Correios ainda buscam diversificar os seus serviços e perseguir uma receita maior para poder reduzir seu custo. E é aí que entram as três mudanças legislativas que dinamitaram as receitas dos Correios.

Primeiro, veio a Portaria 1.086, que revogou o dispositivo que atribuía aos Correios o desembaraço prioritário das encomendas internacionais, principalmente aquelas menores. Isso beneficiou a Shopee, Amazon etc. A segunda é a nova redação dada a Portaria 156 do Ministério da Fazenda, aumentando a base de cálculo do imposto de importação, incluindo o valor do frete e do seguro, o que encareceu parte das compras internacionais para as plataformas de e-commerce, que repassam para os clientes. Os Correios são apenas a transportadora, não são quem vende o produto.

A conhecida taxa das blusinhas resultou em uma queda das importações de baixo valor, impactando as finanças da estatal em prejuízo de cerca de 5 bilhões de reais só em 2025. A receita dos Correios caiu cerca de 60% nos últimos anos: de 20 bilhões de reais para 8 bilhões da receita e não da lucratividade. Receitas destruídas por decisões políticas que visam privilegiar os concorrentes. Os Correios seguiram fazendo seu trabalho constitucional com o mesmo custo, mas a capacidade de atenuar o déficit foi detonado de fora para dentro.

Nos anos de 2017, 2018, 2019 e 2020, os governos Temer e Bolsonaro fizeram planos de demissão nos Correios e tiraram mais de 40 mil funcionários, o que representou um terço do total da mão de obra da companhia. Os resultados de 2017 a 2020 foram mascarados. Com a mesma receita entrando e um terço a menos de custo, era par ter tido um superávit muito maior. Qualquer empresa que se desfaz de um terço de sua capacidade produtiva tem um lucro imediato. Se você vender o fogão e a geladeira da sua casa, você vai ter lucro, mas depois vai ter fome.

Bolsonaro pegou os Correios em 2019 com mais 29,5 bilhões de reais em receita, e, quando saiu, deixou a empresa com 20,3 bilhões de reais, ou seja, uma queda na receita final de mais de 30% (isso em receita e não em lucro). Além disso, ele vendeu a preço de banana tudo o que  a companhia levou anos para capitalizar. E, com essa dilapidação do patrimônio público, a gestão Bolsonaro resumiu-se a baixar a receita em 30% do faturamento da empresa, a perder boa parte do patrimônio, a perder marketing share, ou seja, a participação no mercado para as empresas privadas, e ter um resultado artificial, o que prenunciava toda a ruína, como todo mundo já podia imaginar.

Bolsonaro entrou 2019 com os Correios tendo 1,2 bilhão de lucro e, quando saiu, ao final de 2022, isso havia se transformado em 800 milhões em prejuízo. A concorrência dos Correios basicamente não gasta nada além de um RH por entrega. Ela não paga ao entregador o salário, não oferece garantia, não cumpre direitos trabalhistas, tem apenas a entrega, e, mesmo assim, ela não gasta nada com carro, gasolina, manutenção, é tudo uberizado, por conta do entregador. É uma concorrência desleal.

Então qual é a solução para os Correios?

Retomar a prioridade das pequenas compras internacionais, garantir vantagens competitivas para entregas comerciais e entender que, assim como os EUA e a maior parte do mundo, os serviços públicos de utilidade estratégica não fazem sentido serem medidos pela lógica do lucro. E, para concluir, os Correios dos EUA dão prejuízo, mas nem por isso passa pela cabeça de qualquer norte-americana privatizar essa empresa estratégica. Ah... é pelos Correios americanos que grande parte dos americanos votam.