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Duas negras históricas de Miguel Pereira

Tia Sílvia e Jovita

 26/06/2026     Historiador Sebastião Deister      Edição 535
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Filha de escravizados da fazenda Pau Grande, Sílvia de Souza, a Tia Sílvia de Miguel Pereira, ali nasceu em 13 de agosto de 1871, vindo para a Vila da Estiva após a Abolição da Escravatura.

Com trinta e poucos anos, já nas primeiras décadas do século XX, passou a atender algumas famílias do lugar prestando-lhes assistência como parteira, trabalho que aprendera ainda jovem com outras mulheres negras nos duros trabalhos fazendários da época.

Tornou-se conhecida e muito requisitada pelas mulheres grávidas que, à época, não dispunham de atendimento médico regular tanto nas nascentes cidades de Miguel Pereira e Portela quanto em outros logradouros periféricos. Além disso, Sílvia também se dispôs a amamentar crianças alheias, uma vez que, embora não se casado, gerara cinco filhos: Malvina, Pedro, Osvaldo, Dejanira e Maria. Por conta disso, acabou ganhando as alcunhas de "Mãe Preta" e "Mãe de Leite".

Tia Silvia trouxe ao mundo dezenas de crianças e ofereceu seus fartos seios a muitas outras. Após sua morte, recebeu o carinho e o reconhecimento público graças à criação de um pequeno memorial erguido no Jardim Municipal Francisco Marinho Andreiolo, em Miguel Pereira, iniciativa levada a efeito em 1972 pelo vereador Sílvio Xavier. Com belos e produtivos 92 anos de idade, Tia Sílvia faleceu em 17 de abril de 1963.

Jovita

O policial militar Marcos Toledo, que exerce suas funções em Miguel Pereira, tem trazido à luz interessantes e relevantes dados biográficos e históricos relativos às origens do centenário sobrenome que ele carrega orgulhosamente em seus documentos.

Na realidade, suas origens familiares remetem-se ao período escravocrata da metade do século XIX, quando a negra Maria Amália da Costa, mesmo tendo perdido um dos olhos por conta dos castigos aplicados pelos senhores brancos, conseguiu se unir ao escravo Crispim da Costa. Dessa união veio ao mundo, em 1872, uma menina logo batizada como Jovita Maria da Conceição, nascida, portanto, um ano após a promulgação da Lei do Ventre Livre (28 de setembro de 1871).

Assim sendo, Jovita cresceu sem maiores amarras da escravidão, e um dos seus afazeres mais cotidianos consistia em descer da pequena colina onde vivia para buscar água em um poço nas proximidades do centro da pequena vila, segundo seu bisneto Marcos Toledo, foi em uma de suas caminhadas que ela acabou se deparando com Arthur de Toledo Dodsworth, um dos filhos do barão de Javary (George João Dodsworth), proprietário da fazenda localizada às margens do lago daquele lugar. Dos encontros furtivos entre eles, nasceria então Emília de Toledo, de onde provém o sobrenome carregado hoje pela família.

Importante registrar que no alto de uma colina em Barão de Javary existe uma pequena estrada conhecida como Caminho da Jovita, certamente em alusão ao percurso diário por ela realizado à busca de água. Por outro lado, o conjunto de árvores que caracteriza parte de tal caminho atualmente é conhecido como Bosque da Jovita, relembrando sempre a trajetória de uma negra diferenciada que os grilhões da escravidão não conseguiram apagar e cujo amor fez nascer em Javary uma estirpe que, felizmente, mantém viva sua memória.

A propósito, Emília Toledo gerou Clair Toledo, que casada com Mário Damásio, viriam a ser os pais do citado Marcos Toledo. Por sua vez, Marcos possui dois filhos: Ana Clara Toledo e Pedro Lorenzo Toledo.