Em Miguel Pereira, Marcelo Freixo lança seu livro "Viver é Perigoso"
"Não é o perigo de fora para dentro, mas o perigo que a gente topa correr", explicou o autor
24/07/2026
Livro
Edição 536
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Foi em uma noite fria de
segunda-feira, mas com a casa lotada, que o espaço cultural Casa Pitombeira, em
Javary, recebeu o escritor e político Marcelo Freixo, para lançar e autografar
os livros dos presentes, e, sempre muito gentil e simpático, conversou com cada
um dos presentes.
O título
O título Viver é Perigoso Freixo
tirou da clássica obra de Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas, que, para ele,
significa viver de verdade para que a vida faça sentido. Segundo ele, quando "a
vida nos oferece alguns momentos de ter a chance da coragem de correr algum
risco, a gente tem que escolher. Não é o perigo de fora para dentro, mas o
perigo que a gente topa correr".
O livro aponta um caminho
Com narrativa impactante, ele
expõe como o Rio se tornou o laboratório de um modelo político perverso que,
hoje, se espalha pelo país - especialmente após a ascensão do bolsonarismo. Mas
também aponta um caminho: se foi no Rio que essa máquina de destruição nasceu,
é daqui que pode surgir a resistência capaz de mudar o Brasil.
Professor Madruga
Tiago Madruga, professor da
Escola Municipal Francisco Costa, em São José das Rolinhas, na zona rural de
Miguel Pereira, estava presente. Para Tiago, "o livro do Freixo chegou em
boa hora. O que o estado do Rio vem passando hoje Freixo já alertava há quase 20
anos, desde quando presidiu a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio
de Janeiro, que levou para a prisão milicianos e deputados ligados à milícia. É
um relato contundente de nossa situação política e da necessidade de mudança", disse
o professor.
Augusto da livraria Aquários
O livreiro Augusto César Brasil,
proprietário da livraria Aquário, declarou: "Eu admiro muito o professor e
político Marcelo Freixo e vim aqui para aproveitar a oportunidade de conhecer
uma das pessoas que mais entende de segurança pública no Brasil e que fez de
sua vida uma luta incansável contra as milícias e o crime organizado no estado
do Rio de Janeiro. Foi um prazer muito grande ter conhecido, estando com ele
pessoalmente e trazer o livro que ele lançou juntamente com o escritor paulista
Bruno Paes Manso. Foi muito curioso ver como Marcelo Freixo é querido aqui em
Miguel Pereira, dezenas de pessoas que foram lá para vê-lo, conhecer e trocar
ideia com uma pessoa tão importante do cenário nacional. Fiquei muito feliz com
esse encontro".
Spoiler, uma prévia do livro
Para aguçar a curiosidade dos
presentes, no encontro, Marcelo Freixo contou algumas passagens importantes do
livro Viver é Perigoso, como sobre a rebelião de Bangu 1. Marcelo Freixo
já estava acostumado a mediar rebeliões em presídios grandes com 500, 600
presos, mas, desta vez, era diferente. Bangu 1 era um pavilhão de apenas 48
presos, mas era onde estava a cúpula das facções do Rio, como Fernandinho Beira
Mar, Marcinho VP, Robson Caveirinha, Gigante, Patrick, Celsinho da Vila Vintém
e o Uê, que tinha sido morto na rebelião junto com mais três seguranças seus.
Freixo contou que, às sete horas
da manhã, estava em sala de aula quando foi chamado para ajudar na negociação. Era
11 de setembro de 2002, véspera de eleições para governador e presidente da
República. Freixo foi pego de helicóptero e seguiu para o presídio de segurança
máxima. Um QG fora montado do lado de fora do presídio, e ele entrava e saía
para negociar, ficava entre os amotinados e a cúpula da segurança do governo
estadual. Os presos não queriam que o BOPE participasse das negociações.
Ao final de um dia inteiro de
negociações entre os rebelados e a cúpula da Secretaria de Segurança do Estado,
Freixo conseguiu a palavra dos presos de que a rebelião estava encerrada, não
morreria mais nenhum preso, nenhum refém e também deporiam as armas (e eram
muitas). Mas, como já estava anoitecendo e há uma tradição de que preso não se
entrega à noite, os amotinados acertaram que entregariam as armas e os reféns
às seis horas da manhã. Freixo queria uma garantia. Foi quando Robson Caveirinha
disse olhando nos seus olhos: "Minha palavra vale mais do que um tiro".
Freixo não sabia o que isso significava, mas tudo bem.
Negociação fechada, faltava combinar
com as autoridades que estavam no QG. O secretário de Segurança, que era da
Universidade de Brasília e conhecia pouco da realidade do Rio, estava inseguro,
queria uma garantia de que a rebelião realmente teria acabado e não queria
aceitar a "palavra" empenhada dos presos.
Freixo, cansado e já sem
paciência, retrucou ao secretário: "A única garantia possível numa rebelião
é a palavra dos presos", e prosseguiu, "o que o senhor quer que eu pegue?
Um documento com papel timbrado e firma reconhecida? Se o senhor soubesse
alguma coisa de presídio, saberia que dar a palavra é dar o que eles têm de
mais importante", extravasou o já cansado, com fome e sede Freixo.
É claro que, no livro, essa
passagem, é riquíssima em detalhes emocionantes típicos dos melhores filmes de
suspense, mesmo o leitor já sabendo o resultado do acontecimento.
Oito governadores afastados, dos quais seis foram presos
A pedido dos presentes, Marcelo
Freixo fez um resumo rápido do quadro político-policial por que a administração
pública do estado do Rio vem passando nas últimas décadas, com oito
governadores afastados, dos quais seis foram presos, não tendo quadro como esse
em lugar nenhum do mundo, e isso apenas dos últimos anos para cá. É uma
concentração de corrupção, de desvio, explicou ele. O Rio tem um grande desafio
pela frente, que é poder virar essa página. Esse quadro de corrupção tem
consequências graves na saúde, na educação, na agricultura, mas tem
consequências seríssimas na segurança pública, que é o grande debate do Brasil
de hoje. No Rio, o maior desafio é derrotar o crime organizado hoje.
Freixo exemplificou: "Em 2022,
nós fomos derrotados pelo crime organizado, como foi o caso do Ceperj, que, no
governo interino do governador Ricardo Couto, está mostrando que cada deputado
tem um Ceperj. Estamos vendo, por exemplo, que a Secretaria de Emprego e Renda
tem 80% de funcionários fantasmas e todas as outras têm uma média de 70% de
funcionários fantasmas. O Rio virou um poço sem fundo de desvios, corrupção e
violência", disse o escritor.
Livro
A biografia propõe uma reflexão
sobre o futuro do Rio de Janeiro e do Brasil. Freixo revisita sua origem na
periferia de Niterói, sua atuação como professor e ativista de direitos humanos
e sua trajetória parlamentar marcada pelo enfrentamento a estruturas criminosas
que operam na política e na economia do estado. O resultado é um relato pessoal
que se entrelaça com a própria história contemporânea do Rio, uma cidade de
contrastes, onde cultura, política e violência convivem em tensão permanente.
Com o objetivo de desvendar a simbiose entre o crime, polícia e política, o
livro expõe os bastidores das investigações que confrontaram autoridades e grupos
paramilitares, demonstrando como a luta pela democracia e pela segurança
pública no estado exige embates e riscos extremos de seus protagonistas.
O avanço das milícias e a resistência no parlamento
Desde seus tempos como professor
de História e mediador de conflitos em motins no sistema penitenciário, Freixo
narra como a violência estrutural se fortaleceu no Rio de Janeiro. O grande
destaque da obra, contudo, recai sobre a sua atuação investigativa no
parlamento, período em que liderou frentes decisivas contra as máfias que
dominam territórios.
O autor relembra a tensão de ter
presidido a histórica CPI das Milícias, cujos desdobramentos marcariam para
sempre a sua carreira política e a sua própria vida. O livro relata como se
estruturam os grupos criminosos que visavam lucros milionários por meio de
loteamentos ilegais e monopólio de serviços básicos, operando com a conivência
de agentes que deveriam combatê-los.