Entrevista com Elias Jabbour
Da direção do banco dos Brics, na China, para candidatura a deputado federal. Um dos poucos candidatos que tem projeto de país
28/08/2026
Entrevista
Edição 537
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Elias Khalil Jabbour é
doutor em Geografia Humana pela USP (Universidade de São Paulo), professor
universitário da UERJ, intelectual e escritor brasileiro, reconhecido por seus
estudos sobre o desenvolvimento econômico da China e por sua contribuição teórica
à formulação do conceito de Nova Economia do Projetamento. Elias foi presidente do Instituto Municipal
de Urbanismo Pereira Passos da Prefeitura do Rio de Janeiro entre 2024 e 2026. Em
2022, Jabbour foi convidado pela ex-presidente Dilma Rousseff, presidente do
Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, para assumir a Diretoria de Pesquisas
da instituição, sediada em Xangai, China. Ele se licenciou de suas atividades
acadêmicas na UERJ para ocupar o cargo, com previsão de permanência por dois
anos.
1) Jornal Regional -
Elias você é um dos poucos candidatos a deputado federal (nº 6577) que tem um
projeto de desenvolvimento para o país. Você já esteve várias vezes em Miguel
Pereira e, recentemente, vem visitando o interior do estado do Rio. Nessa sua
visão de país, como você inclui os pequenos municípios do interior como os que
tem visitado?
Eu defendo um projeto de
desenvolvimento para o Brasil e para o estado do RJ, e, dentro desse projeto,
cada município, independente do seu tamanho, tem um papel a cumprir e várias
formas de se beneficiar. O grande mote da nossa campanha é a reindustrialização,
e, quando falamos em indústria, falamos de uma série de setores e atividades
produtivas encadeadas, integradas, cada uma com sua particularidade, mas todas
como parte de uma estratégia geral que busca integrar essas atividades no
território. Isso significa que a instalação de uma unidade produtiva numa
cidade de grande porte pode gerar um efeito de encadeamento que vai chegar num
município de porte médio ou pequeno. Por exemplo, nós defendemos a criação de
dois grandes cinturões industriais no estado do RJ: um no Norte Fluminense,
voltado à cadeia do petróleo, e um no Sul Fluminense, focado no setor
metalmecânico e automobilístico, com a Região Metropolitana transformando-se em
um hub ferroviário. Certamente, municípios pequenos nessas ou em outras regiões
do estado deverão se integrar a esse processo, seja diretamente, abrigando
novas atividades produtivas, novas empresas, conectadas com a produção dos
grandes centros urbanos, gerando empregos industriais e aumentando a
arrecadação de impostos do município, seja indiretamente, com a elevação da
arrecadação de impostos do estado e seus repasses para os municípios,
possibilitando que as prefeituras, o governo estadual e federal tenham mais
recursos para investir nas cidades e suas conexões, além do aumento da renda e
da massa salarial no estado como um todo, o que pode fazer com que as pessoas
tenham mais dinheiro pra gastar no seu município de residência ou em outros.
Isso aumenta as possibilidades, por exemplo, para o setor do turismo, como é o
caso de Miguel Pereira, e gera um círculo virtuoso, fomentando o comércio e os
serviços dessas cidades.
2) Jornal Regional -
Um dos grandes problemas de municípios pequenos, como Miguel Pereira e Paty do
Alferes é o sistema de transporte urbano. Ele é caro, ineficiente,
desconfortável e parou no século passado com ônibus montados em carroceria de
caminhão. Alguns municípios, como Japeri, Itaboraí e Maricá, já implantaram
ônibus tarifa zero, veículos novos, modernos e sem tarifa. Como você acha que
essa implantação pode ser acelerada Brasil afora?
A questão da qualidade e
eficiência dos transportes urbanos é um dos grandes desafios que nós temos nas
cidades brasileiras e fluminenses. É por isso que uma das principais frentes do
projeto de reindustrialização que nós defendemos trata justamente disso.
Desenvolver os serviços de transporte nas nossas cidades deve ser considerada
uma tarefa estratégica. Em primeiro lugar, porque um transporte público de
qualidade tem um potencial enorme de melhorar a vida das pessoas, e não de um
pequeno grupo de pessoas, mas praticamente de toda a população. Trabalhadores,
estudantes, idosos, homens, mulheres, todos que utilizam serviços de transporte
público são beneficiados. Mesmo quem não utiliza com frequência, caso de
pessoas que usam seus carros particulares, tendem a se beneficiar, pois, com
mais pessoas usando transporte coletivo, a tendência é reduzir os
engarrafamentos. Um transporte eficiente faz com que se gaste menos tempo no
trânsito, e menos tempo pra se chegar no trabalho, na escola, por exemplo,
significa mais tempo livre para as pessoas poderem aproveitar como quiserem. Em
segundo lugar, o setor de transporte público pode ser um grande aliado na
reindustrialização que defendemos. Transformar a Região Metropolitana em um hub
ferroviário significa receber uma série de investimentos para fabricação de
trens e trilhos, o que deverá estimular a implantação de novas linhas em novos
municípios, ampliando as conexões urbanas e regionais do nosso estado. Isso
possibilitará às pessoas ter acesso com mais facilidade a mais bairros e cidades,
não dependendo exclusivamente do transporte rodoviário. Além disso, um sistema
de transporte eficiente traz benefícios econômicos diretos, reduzindo o custo
logístico e atraindo novas empresas. Sobre a tarifa zero, ao fomentar o
desenvolvimento econômico e a arrecadação do estado e dos municípios, criam-se
melhores condições para os governos locais implantarem políticas de tarifa zero
e, ao mesmo tempo, garantirem qualidade e eficiência nos serviços de
transporte.
3) Jornal Regional -
Na década de 80, o Brasil produzia mais do que a China e a Coreia do Sul. Hoje,
a China, sozinha, produz o dobro do que o Brasil produz. Naquela época, os
chineses vieram, entre outras coisas, ver como fizemos a usina de Itaipu
binacional e como o BNDES funcionava. Depois disso, o país fez a maior
hidrelétrica do mundo, que é a Usina de Três Gargantas, no rio Yangtzé, na
China. E sobre o BNDES, segundo o economista José Kobori, a China possui mais
de 200 bancos de fomento como o nosso BNDES. O que você acha disso?
Infelizmente, o Brasil,
que até a década de 1980 se destacava no mundo como um dos países que mais se
industrializaram, tomou um caminho problemático a partir dos anos 1990. Nós
embarcamos no discurso de globalização e de fim dos Estados Nacionais, seguimos
a cartilha de neoliberalização do Consenso de Washington e, mais que parar no
tempo, em muitos aspectos, retrocedemos. Já a China, além de aprender com sua
própria experiência, aprendeu com as experiências de outros países. E o Brasil,
por ser um país ainda em desenvolvimento, assim como a China, tornou-se uma
referência para eles naquele momento. Os bancos de fomento são um ótimo exemplo
disso. Se formos olhar a história dos países que se industrializaram e se
desenvolveram, vamos perceber que uma parte determinante para que isso
ocorresse foi a constituição dos bancos de desenvolvimento. Eles cumprem uma
função chave ao garantir financiamento para setores considerados estratégicos,
com capacidade de induzir efeitos de encadeamento para vários outros setores da
economia, como é o caso das infraestruturas, indústrias de base, ciência e
tecnologia. Como geralmente esses setores requerem grandes volumes de
investimento e demandam um longo tempo de maturação, acabam envolvendo
incertezas quanto ao retorno financeiro, de modo que o capital privado
geralmente não quer se arriscar. É aí que entra a participação dos bancos de
fomento, oferecendo crédito a longo prazo, com juros menores que o mercado e
com escala suficiente para dar coerência aos diversos setores objeto de
investimento, reduzindo os riscos. Se antes foram os chineses que aprenderam
conosco, acreditamos que podemos aprender com nosso próprio passado e com o
presente dos chineses. Se a China conseguiu se destacar nas últimas décadas com
seu desenvolvimento econômico, social e tecnológico, muito se deve aos seus
cerca de 200 bancos de fomento espalhados por setores (banco de desenvolvimento
das infraestruturas, bancos de desenvolvimento da indústria e ciência e
tecnologia, banco de desenvolvimento do comércio exterior, banco de
desenvolvimento da agricultura) e territorialmente, com cidades e províncias
possuindo seus próprios bancos de desenvolvimento financiando seus projetos
locais.
4) Jornal Regional -
É possível enfrentar o crime organizado com o atual arcabouço fiscal que limita
o gasto do governo federal?
O atual arcabouço fiscal
limita o gasto do governo federal e isso não fica só na economia - espalha-se para
a vida real das pessoas. Menos investimento significa mais desemprego,
desindustrialização e, no fim da linha, mais violência urbana. Segurança
pública também depende de Estado presente, e Estado sem musculatura financeira
não segura essa ponta.
Combater narcotráfico e
retomar território dominado por milícias ou facção criminosa exige inteligência
qualificada, controle real de fronteira - para impedir a entrada de armas e
drogas que sustentam essas organizações - e presença de Estado nas comunidades.
Presença de Estado é saúde, é educação, é serviço público de qualidade chegando
onde o crime organizado, hoje, ocupa o vazio deixado pelo poder público. Também
é essencial asfixiar as finanças do crime organizado: rastrear e bloquear a
lavagem de dinheiro, atingir o sistema financeiro que sustenta o tráfico e a
milícia, cortar o fluxo de recursos que permite comprar armas, corromper
agentes públicos e financiar a expansão territorial dessas facções. Sem isso,
prender liderança não resolve - o dinheiro continua circulando e a estrutura se
reorganiza. Nada disso se faz com teto de gastos travando o orçamento. Com esse
arcabouço fiscal atual, é impossível bancar a estrutura que a segurança pública
precisa pra vencer o crime organizado. O Brasil precisa de um Estado forte para
enfrentar esse problema de frente.
5) Jornal Regional -
Você concorda que soberania nacional não é uma palavra de ordem, mas sim um
conjunto de ações concretas?
Com certeza. Na grande
política não bastam boas intenções e palavras de efeito. É preciso ter, antes
de tudo, convicção e visão estratégica dos nossos maiores desafios para que
nossa atuação tenha efetividade na realidade. O mesmo serve para o caso da
soberania. Vejo com bons olhos forças de esquerda que, até então, não davam
muita importância pra esse tema, agora, diante dos ataques dos EUA à nossa
soberania, se darem conta de que sem soberania não é possível melhorar a vida
do povo e garantir o desenvolvimento da nossa economia. Nós do PCdoB nos sentimos
muito confortáveis pra tratar desse tema da soberania, pois, desde a fundação
do nosso partido centenário, sempre colocamos a soberania como uma das
principais bandeiras de luta ao lado da emancipação social e da democracia. Não
acreditamos em soberania sem base material que a sustente. E essa base é uma
indústria e uma economia forte que não estejam à mercê de sobressaltos nos
sistemas de preços internacionais, que sejam capazes de internalizar setores e
cadeias produtivas estratégicas pra atender às necessidades do povo. Nosso
projeto de reindustrialização do Brasil deve passar, obrigatoriamente, pela
construção de um complexo industrial de defesa que fortaleça nossas forças
armadas, garanta a integridade e a segurança do nosso território e, ao mesmo
tempo, gere efeitos de encadeamento para outros setores da economia, criando
milhares de novos empregos industriais qualificados e bem remunerados.
6) Jornal Regional -
Hoje, é a China que tem muito a nos ensinar. Um dos casos que você conta é a
expansão do metrô de Shanghai, que é público, tem passagem subsidiada e tem a
maior malha ferroviária do mundo. Esse sistema foi feito com recursos do banco
municipal de Xangai. Como fortalecer os
municípios para termos uma experiência parecida com essa de Xangai?
Para que nossos
municípios possam ser capazes de financiar a expansão da malha ferroviária como
ocorre na China, precisamos de uma série de inovações jurídicas e
institucionais. Um dos primeiros passos seria reverter o movimento que foi
feito nos anos 1990 e início dos anos 2000, durante o governo FHC, que proibiu
os estados e os municípios de emitirem títulos públicos no mercado interno (Lei
Federal 9.496/1997 e Medida Provisória 2.185-35/2001). Além disso, precisamos
recuperar a experiência de bancos de desenvolvimento a nível estadual e
municipal, no caso das grandes cidades. Mas, para isso, é necessária uma
reforma profunda no Estado brasileiro como um todo. É imprescindível dotar
nossas instituições de capacidade de planejar o processo de desenvolvimento, priorizar
o capital produtivo em detrimento do capital meramente especulativo e rentista,
traçar planos, diretrizes, selecionar e executar projetos estratégicos que
possam trazer ganhos de produtividade para nossa economia. Como mencionado
acima, o setor do transporte ferroviário, especialmente metrôs, tem um
potencial enorme nesse sentido, tanto de enfrentar nossos principais gargalos
sociais e urbanos, quanto de fomentar a criação de empregos de qualidade
através de um novo impulso de industrialização apoiado no setor dos transportes
e infraestruturas.
Foto 2 e 3 - Elias jabbour uma das vezes que esteve em Miguel Pereira.