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A grande mentira do livre mercado

Por que a América Latina seguiu o manual errado enquanto a China escrevia história

Edição: 531
Data da Publicação: 20/02/2026

Você já parou para pensar por que a América Latina permanece presa na armadilha da renda média enquanto a China realizou a maior transformação econômica da história moderna?

Nos anos 1980 e 1990, dois caminhos radicalmente diferentes foram propostos. A América Latina abraçou a abertura comercial abrupta, privatizou empresas estratégicas e seguiu o ajuste fiscal ortodoxo do Consenso de Washington. A China, por outro lado, escolheu a abertura gradual controlada, manteve estatais em setores estratégicos e apostou no planejamento de longo prazo.

Os resultados não poderiam ser mais dramáticos: enquanto a China tirou 800 milhões de pessoas da pobreza e se tornou a segunda maior economia do mundo, a América Latina seguiu o Consenso de Washington e estagnou, desindustrializou e viu sua complexidade econômica regredir - tudo que os países desenvolvidos queriam.

O Brasil, especificamente, caiu de uma posição respeitável no índice de complexidade econômica para níveis comparáveis a simples economias exportadoras de commodities.

Por que o modelo neoliberal fracassou e como a estratégia chinesa prova que existe um caminho alternativo para o desenvolvimento econômico. Vamos mergulhar nessa história.

A receita neoliberal prometia prosperidade, mas entregou estagnação.

O Consenso de Washington dos anos 1990 vendeu um pacote completo: abra sua economia rapidamente, privatize tudo que for possível, corte gastos públicos e o mercado fará o resto.

A América Latina comprou essa narrativa completamente. O Brasil liberalizou seu comércio de forma abrupta no governo Collor, reduzindo tarifas médias de 32% para 14% em apenas dois anos. A Argentina foi ainda mais longe, chegando a fixar sua moeda ao dólar em paridade 1:1. Empresas estatais estratégicas foram vendidas - telecomunicações, energia, mineração, bancos.

A promessa era clara: eficiência privada substituiria ineficiência estatal, investimento estrangeiro chegaria em massa, e a produtividade decolaria. Foi uma mentira. O que realmente aconteceu foi bem diferente.

A desindustrialização acelerou brutalmente

A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de 27% em 1985 para 11% em 2019. A abertura abrupta expôs empresas locais à competição global sem dar tempo para que desenvolvessem capacidades competitivas.

A complexidade econômica regrediu

O Brasil caiu no ranking mundial do Índice de Complexidade Econômica de uma posição relativamente alta nos anos 1980 para abaixo de países como Tailândia e Turquia. Nossa pauta exportadora voltou a ser dominada por commodities agrícolas e minerais.

A armadilha da renda média se consolidou

Mesmo com reformas "corretas" segundo a ortodoxia, a América Latina não conseguiu fazer a transição para economias de alta renda. O crescimento médio da região entre 1990-2020 (trinta anos) foi medíocre, especialmente quando comparado ao período 1950-1980. A privatização, em particular, revelou-se um desastre em muitos casos - ativos estratégicos foram vendidos a preços baixos, monopólios públicos viraram monopólios privados, e os ganhos de produtividade não se materializaram como prometido.

A China escolheu o caminho inverso e transformou 800 milhões de vidas

Enquanto a América Latina seguia o manual neoliberal do Consenso de Washington, a China estava escrevendo um roteiro completamente diferente baseado em gradualismo e pragmatismo. A abertura comercial chinesa foi lenta, controlada e estratégica. Começou com Zonas Econômicas Especiais em 1979 - áreas geográficas limitadas onde experimentos de mercado podiam ser testados sem comprometer toda a economia.

Shenzhen foi a primeira, seguida por outras quatro cidades costeiras. Apenas após ver que funcionava, o modelo foi gradualmente expandido para outras áreas da China. A proteção tarifária foi reduzida devagar, dando tempo para empresas nacionais aprenderem e se desenvolverem. Subsídios estratégicos sustentaram indústrias nascentes em setores de alta tecnologia. As estatais não foram privatizadas - foram reformadas e mantidas em setores considerados estratégicos:

Energia e infraestrutura 

Permaneceram sob controle estatal para garantir investimentos de longo prazo que o setor privado não faria.

Bancos estatais 

Direcionaram crédito subsidiado para setores prioritários identificados pelo planejamento central, algo impossível com bancos privados focados em rentabilidade de curto prazo.

Empresas de tecnologia

Huawei e ZTE receberam apoio massivo do Estado chinês através de subsídios, crédito barato e proteção de mercado interno até estarem prontas para competir globalmente. O resultado dessa estratégia foi espetacular. O PIB per capita chinês cresceu de US$ 156 em 1978 para mais de US$ 10.000 em 2019 - um aumento de 64 vezes. A participação da indústria de alta tecnologia nas exportações saltou de praticamente zero para mais de 30%. A China passou de importadora líquida de tecnologia para líder mundial em várias áreas como telecomunicações 5G, inteligência artificial e energia solar.

O sistema dual-track foi a inovação que o neoliberalismo nunca conseguiria aceitar

A grande sacada chinesa que Isabella Weber documenta brilhantemente foi o sistema dual-track: manter preços planejados para garantir estabilidade enquanto, simultaneamente, permite preços de mercado para incentivar produção adicional.

Funciona assim: empresas estatais recebem quotas de produção a preços fixos controlados, mas qualquer produção além da quota pode ser vendida a preços de mercado. Isso criou incentivos de mercado sem gerar o caos inflacionário e social da "terapia de choque" aplicada na Rússia e Europa Oriental. Os economistas ortodoxos odiaram essa ideia, afinal o manual neoliberal dizia que você precisa escolher: ou mercado ou planejamento.

A China provou que isso era falso. Durante os anos 1980, o sistema dual-track permitiu crescimento industrial explosivo, porque empresas tinham incentivos para produzir mais além das quotas estatais.

Estabilidade de preços em bens essenciais

Por que as quotas garantiam oferta básica a preços acessíveis para a população.

Transição gradual para preços de mercado

Conforme a economia se desenvolveu, os preços planejados foram sendo eliminados setor por setor, sem choques. Compare isso com a terapia de choque russa: liberação abrupta de preços, privatização rápida, colapso econômico brutal. O PIB russo caiu 40% entre 1991-1998. A expectativa de vida caiu. Oligarcas compraram ativos estatais por centavos. Foi um desastre humanitário de proporções épicas - e exatamente o modelo que o FMI recomendava para todos, inclusive o Brasil. A China olhou para esse experimento e disse: não, obrigado, vamos fazer do nosso jeito. E mostrou ao mundo um novo caminho.

O planejamento de longo prazo venceu a obsessão com ajuste fiscal de curto prazo

Aqui está talvez a diferença mais fundamental: horizonte temporal. A América Latina, seguindo o Consenso de Washington, ficou obcecada com ajuste fiscal trimestral, metas de inflação anuais e superávits primários, como é até hoje.

O Brasil passou décadas cortando investimento público para cumprir metas fiscais que supostamente trariam confiança dos mercados - isso não aconteceu. O resultado foi a deterioração da infraestrutura, queda no investimento em educação e tecnologia, e estagnação do crescimento potencial.

A China fez o oposto - investiu massivamente, mesmo acumulando dívida quando necessário.

Infraestrutura de transporte

A China construiu mais de 40.000 km de ferrovias de alta velocidade desde 2008, conectando todas as grandes cidades e reduzindo custos logísticos dramaticamente.

Educação e tecnologia

Gastos crescentes em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) que saltaram de 0,6% do PIB em 1995 para 2,4% em 2019, superando a maioria dos países desenvolvidos.

Desenvolvimento industrial

Subsídios estratégicos para setores de alta tecnologia identificados no plano Made in China 2025 - semicondutores, robótica, veículos elétricos, biotecnologia. O planejamento quinquenal chinês define prioridades nacionais de longo prazo e mobiliza recursos públicos e privados para alcançá-las. Não é planejamento soviético rígido, é coordenação estratégica com flexibilidade tática.

No Brasil...

Enquanto isso, o Brasil não consegue planejar além do próximo ciclo eleitoral, porque qualquer aumento de gasto é atacado como irresponsabilidade fiscal.

A transformação estrutural exige Estado estratégico, não Estado mínimo

O caso chinês destrói a narrativa neoliberal de que desenvolvimento econômico requer Estado mínimo e confiança cega no mercado. Transformação estrutural - a mudança de uma economia agrária para industrial e depois para serviços sofisticados - nunca aconteceu através de puro laissez-faire (deixar fazer). TODOS os países desenvolvidos usaram protecionismo, subsídios e políticas industriais em seus estágios de desenvolvimento.

A Inglaterra protegeu sua indústria têxtil. Os EUA tinham tarifas altíssimas no século XIX. O Japão e a Coreia do Sul usaram planejamento estatal intensivo. A China simplesmente seguiu esse padrão histórico em escala massiva e adaptado ao século XXI:

Política industrial ativa

Identificação de setores estratégicos e mobilização de recursos para desenvolvê-los, algo que a América Latina abandonou nos anos 1990.

Banco de desenvolvimento robusto

O China Development Bank fornece crédito de longo prazo para projetos estratégicos que bancos comerciais nunca financiariam.

Absorção e inovação tecnológica

Exigência de transferência de tecnologia como condição para acesso ao mercado chinês, permitindo empresas locais aprenderem e eventualmente inovarem. É claro que o modelo chinês tem problemas sérios - autoritarismo político, custo ambiental brutal, desigualdades regionais enormes. Não estou romantizando a China, mas os dados econômicos são inegáveis: em termos de transformação estrutural e redução de pobreza, foi o modelo mais bem-sucedido da história moderna.

A lição que a América Latina se recusa a aprender

Aqui está a verdade desconfortável: nos foi vendida uma mentira. Nos disseram que mercado livre, Estado mínimo e abertura abrupta trariam prosperidade. Continuamos a seguir a receita à risca. Privatizamos, liberalizamos, cortamos gastos. E o resultado foi desindustrialização, reprimarização da economia, e três décadas perdidas.

Enquanto isso, a China ignorou completamente o manual neoliberal - manteve estatais, protegeu mercado interno, subsidiou indústrias estratégicas, planejou longo prazo. E criou a maior transformação econômica da história. A diferença não foi só de política econômica, foi de capacidade estatal, visão de longo prazo e coragem para rejeitar dogmas importados. A China tinha um Estado desenvolvimentista forte e pragmático. A América Latina desmontou suas capacidades estatais justamente quando mais precisava delas. O debate não deveria ser mercado versus Estado. Deveria ser sobre que tipo de Estado que queremos: um Estado estratégico que coordena transformação estrutural ou um Estado mínimo que apenas garante contratos e estabilidade macroeconômica?

A história já respondeu essa pergunta. Resta saber se temos humildade para aprender com ela.

Fonte: economista Paulo Gala