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O Brasil Secreto

Como a "terra morta" se tornou o maior celeiro de soja do planeta

Edição: 532
Data da Publicação: 31/03/2026

Especialistas dos EUA publicaram um relatório, em 1971, dizendo que o país não tinha a capacidade de desenvolver sua própria agricultura tropical.

Em 23 de abril de 1973, o Brasil criou a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. A soja era uma planta de clima temperado, crescia apenas próximo ao paralelo 30, onde o clima é frio; no Brasil, isso significa o Rio Grande do Sul. Plantar soja no cerrado a 15º de latitude contrariava a biologia da planta.

Quando, em 1973, o Brasil criou uma empresa de pesquisa agrícola, o mundo inteiro disse que era dinheiro jogado fora. Cinquenta anos depois, pesquisadores do IMT - Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que é uma das universidades de pesquisa mais prestigiadas do mundo, sediada em Cambridge, EUA, reconhecida como líder global em ciência, engenharia e tecnologia - publicaram um estudo dizendo que o gasto que o Brasil teve com a criação da Embrapa foi um dos maiores retornos de investimento público da história.

Embrapa Soja - Paraná

Romeu Afonso de Souza Kiihl, pesquisador da Embrapa Soja, em Londrina, Paraná, passou décadas desenvolvendo variedades de soja adaptadas ao calor tropical, criou mais de 150 espécies de cultivares. O cerrado, que o mundo chamava de "terra morta", virou o maior celeiro de soja do planeta.

Hoje, mais de 60% da soja brasileira vem do Cerrado. Na safra 2024/25, o Brasil colheu 168 milhões de toneladas (mais do que os EUA). Mas o maior feito não foi a soja, foi o que Johanna Döbereiner descobriu nas raízes dela.

Embrapa Agrobiologia - Seropédica

Johanna era uma imigrante Tcheca que chegou ao Brasil em 1950, depois de perder a mãe em um campo de concentração. Pesquisadora da Embrapa Agrobiologia em Seropédica, Rio de Janeiro, ela estudou bactérias que vivem nas raízes das plantas e descobriu que aquelas podiam fixar o nitrogênio do ar diretamente no solo, eliminando a necessidade de fertilizantes químicos.

O mundo inteiro usava adubo nitrogenado. Johanna provou que o Brasil não precisava. A sua tecnologia, a fixação biológica de nitrogênio, está presente, hoje, em 75% da área cultivada de soja no Brasil, economizando 38 bilhões de reais por ano em importação de fertilizantes.

Johanna morava no campus da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ, vizinha do meu sogro. Ela foi indicada ao Prêmio Nobel de Química. Johanna morreu no ano 2000 quase desconhecida do grande público, mas famosa na Universidade Rural.

Em 1975, o Brasil produzia 38 milhões de toneladas de grãos. Em 2017, chegou a 236 milhões de toneladas de grãos com o dobro da área. Segundo a própria Embrapa, a tecnologia explica 59% desse crescimento.

O IMT calculou que cada real investido na Embrapa gerou 17 reais de retorno. Uma imigrante que fugiu da guerra, um pesquisador, filho de alfaiate, uma empresa criada quando o Brasil era chamado de país do futuro... eles fizeram o impossível virar rotina - isso é o Brasil Secreto.