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Um médico do Recife provou que a fome do Nordeste não era culpa da seca

Se milhões de pessoas passam fome, não é por uma tragédia humana, mas por uma escolha política

Edição: 537
Data da Publicação: 28/08/2026

Josué de Castro conhecia aquilo de perto. Nasceu em Recife em 1908 e cresceu vendo as famílias que moravam em mocambos e comiam o que arrancavam do mangue. Chamou isso de ciclo do caranguejo: gente que só comia o que a maré deixava para trás. Em 1932, aos 24 anos, foi contar prato por prato. Fez o primeiro inquérito alimentar do Brasil com 500 famílias do Recife. A dieta era farinha, feijão com charque (uma espécie de carne seca de boi ou de outros animais), café e açúcar. Só isso. Apenas 19% das pessoas tomavam leite e 16% comiam fruta. Somavam 1.645 calorias por dia, menos do que se comia na Amazônia.

Disseram que Josué estava exagerando. A explicação oficial (sempre tem uma) era outra: a fome do Nordeste vinha da seca. Se a culpa era do clima, era da natureza, logo não era culpa de ninguém.

Chamavam o trabalhador de preguiçoso. Quarenta e quatro anos depois da abolição, o salário era tão baixo que não dava para comer direito. Os patrões chamavam aquilo de rebeldia do negro liberto. Josué explicou: sem combustível suficiente, a máquina anda devagar. A moleza do cabra de engenho não é mal de raça, é mal de fome.

Só que a fome também estava onde chovia. Na Zona da Mata, com chuva regular e terra boa, era pior ainda. Não vinha de vez enquanto: era o ano inteiro. Não faltava água, faltava terra para plantar comida, porque o senhor de engenho não deixava a terra dele produzir nada que não fosse cana-de-açúcar.

Quase ninguém escrevia sobre isso. Josué chamou de "conspiração do silêncio" cada publicações sobre guerra. Ele achou uma sobre a fome. Não era descuido, era interesse: falar sobre fome obrigava a falar de quem era dono da terra.

Josué argumentava que a fome era usada como instrumento de controle social, mantendo populações inteiras em uma condição de fragilidade e submissão social.

Em 1946, saiu a Geografia da Fome. Ali, estava escrito que de 700 mil habitantes do Recife, 230 mil moravam em mocambos, no mangue. Era um terço da cidade. O livro rodou o mundo em mais de vinte idiomas. Em 1952, por causa desse livro, ele foi convidado para ser embaixador da ONU contra a fome. Ele presidia o conselho da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) é uma agência especializada da ONU que lidera os esforços internacionais para erradicar a fome, garantir a segurança alimentar e promover o desenvolvimento rural), agência de alimentação da ONU.

Em 9 de abril de 1964, Josué foi cassado pelos militares. Ele era embaixador brasileiro na ONU, em Genebra. Perdeu o cargo e os direitos políticos por dez anos e nunca mais se recuperou.

Aos dias de hoje

Quase 100 anos depois, o pensamento da atrasada elite brasileira é o mesmo. Ela critica o Bolsa Família, que nada mais é do que um programa para não deixar o pobre passar fome e, ao mesmo tempo, atrelar as exigências de vacinação e frequência escolar dos filhos. Nada mudou, a elite brasileira não está interessada em dar educação gratuita e de qualidade para todos, e também questiona as vacinas. Para ela pouco importa saber que nesses últimos três anos, mais de 2,7 milhões de famílias já deixaram o programa do governo federal porque melhoraram de vida.

Os números do Bolsa Família contam uma história que raramente aparece no debate público. Segundo levantamento do Poder360, o programa saiu de 21,60 milhões de famílias atendidas, em dezembro de 2022, para 18,84 milhões, em fevereiro de 2026, ou seja, uma queda de 2,76 milhões de benefícios em 3 anos e 2 meses de terceiro mandato de Lula.

O contraste com o governo anterior é grande. Nos quatro anos de Jair Bolsonaro, o programa - rebatizado de Auxílio Brasil em boa parte do período - ganhou 7,46 milhões de famílias, saltando de 14,14 milhões em dezembro de 2018 para o pico de 21,60 milhões em dezembro de 2022. Vale lembrar que boa parte dessa expansão se concentrou em 2022, ano eleitoral, com forte inchaço nas chamadas famílias unipessoais (beneficiários que moram sozinhos).